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domingo, 29 de janeiro de 2012

Trabalhando com cachorros

Semana passada comecei a trabalhar na The Welfare of Stray Dogs, uma organização que cuida de cachorros de rua, ajudando a controlar a alta população canina de Mumbai através de esterilização e também no combate à raiva.
No primeiro dia fui ao escritório, onde as ligações não param, depois fui conhecer o canil, que fica em uma favela e tenho que ter muito sangue frio para cruzar todas aquelas ruas cheias de montanhas de lixo que muitas vezes suporto tossindo e com ânsia de vômito por conta do extremo mau cheiro gerado pelos restos de vísceras de animais recém abatidos, fezes humanas e de animais, esgoto, plástico, frutas em decomposição e tantas outras coisas que no fim são incineradas no meio da rua.
Para chegar lá ainda tenho que enfrentar 20 minutos de caminhada até a estação, depois mais 20 no trem e então os 10 últimos e mais terríveis minutos atravessando a favela até finalmente chegar.
Logo que entrei no canil segurei o choro e enfrentei a situação. Vi tantos cachorros num estado lastimoso só por conta da maldade humana, alguns com facadas nas costas, no focinho, outros que tinham tanto medo que se encolhiam quando qualquer pessoa chegava por perto mesmo que fosse para oferecer comida.
Labrador com deficiência física e rabugento que vive no canil.
Fora os que foram simplesmente esquecidos e passavam fome e estão em estado avançado de desnutrição. Quando vi um labrador igualzinho a Charlotte que quase não tinha pele de tanta magreza, só não perdi as forças e me ajoelhei no chão em estado de desistência porque senti uma raiva tão grande só de imaginar que alguém pudesse maltratar tanto um animal a troco de nada que me fez continuar. O canil ainda abriga animais com deficiência física e que por isso, são abandonados e deixados de lado.
Neste dia, após conhecer toda a rotina dos funcionários, fui passear com os cachorros, um por vez e durante 15 minutos.
Bambi, minha preferida.
Vocês não sabem o quanto isso é importante e a diferença que faz. Imaginem viver em uma gaiola durante tanto tempo sem poder sair? Então, esses poucos minutos de caminhada são a única liberdade para algum desses cachorros. Só pude caminhar no pátio que é até grande, onde vivem alguns gatos, talvez uns 20 ou 30 que também recebem comida e cuidados da organização. Quem vive solto por lá é o Prince, um mascote que deve ter uns 4 meses ou menos e sempre se joga no chão para todos os cachorros mais velhos em sinal de respeito, o problema é que ele é o mais novo e quando quer brincar quase sempre leva um susto dos mais velhos, então sobram os gatos , que também não toleram muito seus pulos, giros e mordiscadas e acabam dando patadas nele que tem o focinho cheio de unhadas.
Bom, o trabalho da WSD não é só no canil, aos domingos ocorrem os primeiros socorros e hoje acompanhei parte da equipe que realizou esses cuidados nos cachorros de rua.
Meninas da WSD tratando mais um cachorro.
Nos encontramos em frente ao Eros Cinema e o Abod, meu chefe, me levou junto com mais três funcionárias para encontrar os cachorros que estavam na lista de hoje.
Abod e velho amigo de rua.
Fomos parando em vários pontos da cidade onde tratávamos passando remédios nos cachorros que geralmente tinham problemas de pele ou nos olhos. Muitos desses animais são de moradores de rua ou pessoas muito pobres que não tem condições de cuidar, mas pelo menos dão muito carinho a eles.
Além de todos esses cuidados, a WSD apanha os cachorros e os leva para o canil onde são esterilizados, e então devolvidos para os donos, ou para as ruas. Os cachorros que vivem no canil geralmente são os que foram retirados das ruas que rodeiam o aeroporto, o Abod me contou que muitas pessoas passam por lá e atiram neles (A TROCO DE NADA). Triste.Enfim, o trabalho não pára um dia sequer. Amanhã tem mais!
Site da WSD: http://wsdindia.org/

sábado, 28 de janeiro de 2012

mãos queimadas

Lembram do filme “Quem quer ser milionário”? Neste filme uma das histórias era a de algumas crianças que tiveram os olhos queimados com ácido e depois foram jogadas nas ruas para mendigar, ganhando assim mais dinheiro, já que impressionavam quem passava por elas. Nessas semanas que tenho vivido em Mumbai eu quase não quis acreditar, mas comecei a reparar que um sistema parecido acontece de verdade por aqui, são as crianças com as mãos queimadas. Logo que chegamos Martin e eu descobríamos Mumbai e por isso andávamos o dia inteiro, foi num dia desses, em uma avenida movimentada, tentando atravessar o sinal no meio do caos que um senhor veio rapidamente na nossa direção, percebi que ele carregava alguma coisa enrolada em uma tipóia e foi aí que eu vi que ele segurava um bracinho estendido, a criança estava toda enrolada e só via aquela mão queimada, não sei se com ácido ou água fervente. Foi uma das cenas mais absurdas que já vi na vida, eu quase não consegui acreditar e aquela cena me perseguiu a semana inteira. Dias depois Martin veio me contar que mais uma vez tinha visto a mesma situação e não tinha certeza se era o mesmo homem, pois ele estava longe daquele lugar, mas as semanas foram passando e eu vi que aquela situação podia ser vista em várias esquinas, ontem mesmo estávamos no táxi indo ao cinema e um senhor chegou encostando a mão de um desses bebês no vidro.
Imaginem o sangue frio dessa gente que consegue fazer uma coisa dessas, eu realmente não consigo imaginar essa dor, olha que até tentei, lembrando que até um café quente machuca a boca quando tomamos sem querer, então pensem na dor que essas crianças devem sentir. Realmente impressiona e é mais uma dessas situações que estamos atados sem poder fazer absolutamente nada.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hoje enfrentei umas das situações mais loucas da minha vida. Peguei um trem na Índia! Todos sabem que essa é uma das aventuras obrigatórias a se fazer por aqui, então, como Martin precisava ir à uma feira de tecnologia representar a câmara de comércio e o lugar era muito longe do centro, aproveitei para pegar carona sem mesmo saber pelo que iríamos passar. Chegamos por volta das 8h30min e a estação ainda estava muito movimentada, lá pelas 9h6min entramos no nosso trem que estava até vazio, então nem me apavorei muito. A viagem seria de uma hora, então resolvemos ficar em pé perto da porta (que ficava aberta o tempo todo) para dar uma olhada na cidade. Os primeiros 15 minutos foram tranquilos e só achei estranho ver as pessoas correndo para entrar no trem mesmo com este em movimento. O problema foi que passados esses primeiros minutos, a coisa começou a complicar. Para começar, eu não estava no vagão feminino por causa do Martin, então fomos para o "misto", onde eu era a única mulher, depois me assustei quando uns 15 homens de uma só vez entravam em cada parada que o trem fazia, enquanto só 2 ou 3 saíam, eles simplesmente não esperam os outros saírem e os puxam para fora, quem não consegue entrar totalmente fica do lado de fora mesmo, sem medo de cair nos trilhos, incrível!! Teve uma hora em que eu não aguentei o pânico e comecei a chorar pois, estava ficando imprensada e com medo de ser jogada para fora do trem, mas logo parei e pensei que se entrasse em desespero seria pior. Ao mesmo tempo que controlava minhas emoções, tinha que controlar a força, aliás, tive que fazer muita força mesmo pois as pessoas cada vez nos apertavam mais procurando por espaço, o bom é que éramos os mais altos, então tínhamos uma pequena vantagem. Mas então quem tirou vantagem da única mulher do vagão foi um homem atrás de mim que se aproximou "um pouco de mais" e quando eu senti dei um grito e ele rapidamente parou e ficou com um olhar de paisagem como se naaada tivesse acontecido, mas, bem, brigar e gritar só iria piorar a situação, então fiquei de costas para a parede arriscando minha bolsa. Depois de uma hora ainda não tínhamos visto nossa estação, foi aí que me deu a loucura de sair do trem antes que eu mesma fosse jogada para fora.
Foi uma situação absurda mas que rendeu uma boa história, com certeza na próxima vez irei procurar o vagão feminino e evitar alguns problemas. Acho que viver por aqui é só uma questão de adaptação.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

curiosidades

Esta semana fomos ao cinema assistir a um filme de Bollywood, depois de todos os comerciais começou a tocar o hino da Índia e, assim como o outro espectador (sim, só tinha mais um na sala de cinema), nos levantamos para escutar. Foi lindo de ver o hino cantado na língua de sinais por crianças com deficiência auditiva.
Aqui estão as palavras do Bobby Pawar do realizador grupo Mudra: "O Hino Nacional é tocado nos cinemas antes de cada filme. Nossa idéia era usar o Hino e fazer cada pessoas não apenas ficar e cantar, mas sentir-se um pouco diferente sobre o seu país e voltar para casa com uma forte mensagem sobre a unidade na diversidade. A idéia está centrada no pensamento, "O patriotismo não conhece a linguagem" e é trazido à vida por centenas de crianças especiais cantando o Hino Nacional com as mãos. O filme é a primeira parte de um programa para envolver as pessoas, no solo e on line, em um diálogo sobre como podemos libertar nossa nação dos preconceitos que podem nos dividir. "
Aqui vai o link do vídeo, vale muito a pena assistir: http://www.youtube.com/watch?v=g8zbK6we7cU

Outra curiosidade, (uma das que eu mais adoro), é o anis e os grãos de açúcar que são servidos após as refeições. Gente, é realmente muito gostoso ficar com esse gostinho refrescante na boca por alguns minutos após ter comido toda aquela comida apimentada. Já comprei meus saquinhos para levar ao Brasil, este é um hábito que não quero perder.


Aaaahn, os bichos! eu amo, todos! Minha prima diz que desde criança eu desviava das formigas para não matá-las e eu só percebi que ainda faço isso depois que ela me disse. Aqui em Mumbai a gente tem que desviar de muitos outros, não apenas desses pequenos insetos. Primeiro você tem que cuidar as pulgas no colchão, depois os ratos que andam mesmo de dia sem o menor pavor pelas sarjetas, então vem os cocôs dos cavalos que andam de cá pra lá pelas ruas levando turistas nas carruagens, então vem as vacas, ah, as sagradas vacas! Seus donos ficam sentados nas calçadas com um punhado de mato ou pedaços de naan vendendo para os religiosos que compram por um punhado de rúpias e as alimentam juntamente com uma oração. Lindo! sempre que posso faço isso. Bom, voltando, aí vem os gatos, muitos deles, não, vocês não entenderam, são muitos mesmo! Martin disse que eu vou ser a velha dos gatos pois sempre paro pra conversar com um quando aparece, tem alguns perto da câmara de comércio que já viraram amigos, haha. Mas amigos mesmo são os cachorros, eles são tão carinhosos e tem um ar tão triste, diferente dos do Brasil que tem a esperteza no sangue por medidas de sobrevivência. Todas as noites saio com o Martin para caminhar na orla em frente ao Taj Mahal Hotel e por lá é fácil encontrar uns 10 cachorros, ontem um deles foi especial para nós. Fizemos carinho, brincamos, até corri com ele nas ruas desertas pois já era tarde da noite e o mais incrível é que ele nos seguiu todo o caminho até nossa casa, então entramos, fechamos o portão e ele continuou lá, até soltou um chorinho e eu subi logo as escadas ou quem choraria seria eu. Quando olhei pela janela do quarto lá estava ele, na esquina olhando para o portão, nos esperando.

Não interessa se alguns me acham maluca ou não, mas prefiro dar carinho pra esses bichos que nunca ganharam um afeto que seja na vida do que paparicar crianças, não sei, nunca tive contato com crianças, só bichos, não sei ser de outro jeito, e pasmem, o Martin também está se entregando aos poucos a eles!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Maratona, Templo Mahalaxmi e Mesquita Haji Ali’s


Hoje (domingo,15) o dia começou bem corrido (desculpem o trocadilho) porque foi dia da Maratona de Mumbai. Martin e outros funcionários da câmara de comércio alemã foram convidados a fazer uma caminhada simbólica em apoio ao combate contra a má nutrição infantil, assim como tantas outras empresas e ONG’s também participaram. Chegamos bem cedo, encontramos o pessoal, vestimos as camisas e começamos a caminhada que durou umas 3 horas. Pela primeira vez vi de perto aqueles famosos quenianos correndo com aquelas pernas enormes e numa velocidade absurda.
No caminho tinham algumas atrações como as danças típicas que eu adorei ver de perto. Depois disso tudo fomos conhecer um templo hindu e, neste primeiro, tinham apenas umas quatro ou cinco pessoas rezando, depois deste passamos perto de um muito conhecido, o Mahalaxmi (Deus da prosperidade) Temple, para chegar até lá entramos em uma ruela cheia de camelôs vendendo tabaco para mascar, grãos de açúcar, docinhos indianos, muitos tecidos, perfumes e flores que são usadas como oferendas. Nos aproximando do templo percebemos duas filas enormes, uma só para mulheres e outra só para homens, acho que tinha uns 400metros. No caminho as pessoas deixavam os sapatos no chão (pois não é permitido entrar calçado nos templos) enquanto outras cobravam algumas rúpias para guardá-los.
Infelizmente a fila era muito grande e acabamos não entrando, mas está em nossos planos voltar e conhecer o lugar. Paramos para almoçar em um restaurantezinho qualquer, eu comecei a ver que a falta de higiene existe em quase todos os lugares, os hábitos das pessoas são os mesmo, então, não importa se você for em um que aparente ser mais arrumado, no fim as comidas são preparadas da mesma forma. Passamos uma vez no restaurante de um hotel e vimos que alguns meninos sentados no chão com as pernas cruzadas, descalços, com uma bacia de aço à frente mexiam uma mistura para fazer as comidas, ou seja, qualquer lugar será assim, nossos anticorpos que sejam abençoados e comecem a trabalhar duro! Logo depois do almoço fomos à Haji Ali’s Mosque, a mesquita que é um dos símbolos mais impressionantes de Mumbai fica numa ilhota ao sul da cidade e tem uma arquitetura impressionante indo islâmica que de longe enche os olhos. O Haji Ali’s foi construído em 1431 em memória do rico comerciante mulçumano Sayyed Peer Haji Ali Shah Bukhari, que desistiu de todas as suas posses para peregrinar até Meca.
Para chegar até a mesquita é preciso ter sorte com a maré do mar arábico, uma longa ponte nos leva até lá e no caminho encontramos muitos vendedores de bugigangas e muitos, muitos mendigos, crianças, leprosos, cegos, e todo o tipo de deficientes físicos que você possa imaginar, alguns até assustadores, todos pedindo uma rúpia que seja.
É difícil negar, mas fomos instruídos a agir assim, é simplesmente impossível dar uma moeda que seja para todos os que encontramos, mas todos os dias tento dar um troco a um pedinte. O lugar é realmente incrível, dá pra sentir de perto toda essa fé que as pessoas carregam.Como saímos de casa às 7h da manhã e já eram quase 17h, decidimos voltar para tomarmos um banho, mas logo depois fomos dar umas voltas pela redondeza. Paramos em um restaurante para jantar, passamos pelo mar de vendedores nos oferecendo todas aquelas maravilhas mais uma vez, isso também é difícil de negar, a final, são tantas pulseiras, bolsas, tecidos e todas essas cores da Índia que nos enchem os olhos, mas claro que as quinquilharias da China não podem faltar. Na volta caminhamos pela orla que é curtinha em frente ao Taj Mahal Palace Hotel e voltamos para casa.

Adaptação

Nossa primeira semana na Índia já começou muito intensa. Depois de Aurangabad voltamos a Mumbai e ainda não tínhamos um lugar para ficar, estávamos em um hotel no centro muito bem localizado. Todos os dias fazemos alguma coisa, já fomos no Hard Rock Café, que não é dos melhores, mas isso não nos importa muito por aqui. Segunda fomos a um encontro dos alemães da câmara de comércio e durante o evento foram servidos petiscos indianos que Martin não deixou passar nenhum! Conversei principalmente com duas alemãs que estavam aqui por três semanas e pelo jeito não gostaram tanto, mais tarde um homem sentou perto de nós e deu um cartão para mim e outra menina dizendo que ele procurava pessoas para participarem de filmes em Bollywood, hahaha, adorei isso. Também passamos a semana vendo alguns apartamentos e achamos um, finalmente!

Estamos alugando um quarto que fica a uma quadra do Taj Mahal Palace Hotel, o que não é aquela maravilha toda que se imagina, mas da janela podemos ver o hotel. As ruas são infestadas de vendedores insistentes e caminhar até a esquina é estressante. O Jens, outro alemão que trabalha na Câmara de Comércio também mora aqui no apartamento, então algumas vezes saímos juntos, como ontem, quando fomos no Blue Frog, um bar meio esquisito que tenta parecer sofisticado mas tem um ar muito.
Bom, finalmente já tenho internet e posso atualizar o blog diariamente. Aos poucos escrevo sobre as curiosidades da cidade.
até mais!

Aurangabad

Quando estávamos em Aurangabad foi difícil acreditar que aquela era a segunda maior cidade do norte do estado de Maharastra e que também é a que cresce mais rapidamente no mundo. As ruas muitas vezes não são asfaltadas e calçadas, se um dia existiram, hoje não se vê mais.
Aurangabad foi fundada em 1610 por Malik Ambar, em 1653, torou-se sede de Aurangazeb, último grande imperador mogul. A cidade tem uma curiosidade que é o Bibi ka Maqbara, o mausoléu é uma cópia do Taj Mahal e foi erguido em 1678 por Azam Shah, filho do Aurangazeb, em memória da sua mãe, Rabia Durrani.
Por questões financeiras o Bibi ka Maqbara não pôde ser tão grandioso como o Taj Mahal, um nativo nos contou que Malik Ambar, quando teve seus cofres esvaziados, tentou apelar para o dinheiro do governo, mas evidentemente acabou tendo seu pedido negado. Bom, se o Bibi ka Maqbara não é tão rico como o planejado eu não sei, mas de todo aquele mármore branco sai uma força e uma imponência enorme.
Depois dessa visita, pegamos o riquixá e fomos até as cavernas de Aurangabad, cavadas principalmente entre os séculos 6° e 7°, porém a mais antiga foi cavada no século 1°. Em uma delas há uma imagem de Buda esculpida em pedra, sentado em um trono de leão. Essas cavernas estão no alto de um morro, então a vista é extraordinária. Pudemos ver ao longe os montes que cercam Aurangabad. Eu adorei ficar nas cavernas principalmente pelo silêncio, que às vezes era quebrado por algum tocador de flauta, pelo clima agradável, o vento que corria pelos montes, os papagaios que constrastavam suas penas verdes com o céu azul, os esquilos que corriam atrás de migalhas deixadas pelos turistas e principalmente a paz.
Voltando para a cidade fomos conhecer o museu, passamos pelo portão da cidade velha, o parque que também conta com um zoológico com uma estrutura péssima, tanto para os visitantes quanto para os animais que maior parte das vezes vivem em gaiolas minúsculas.
No fim da tarde visitamos o Panchakki, um moinho d’água que conta com uma área tranquila com algumas barracas vendendo quinquilharias, uma mesquita e bancos sob árvores centenárias onde ficamos por alguns minutos.
Demos ainda umas voltas por duas lojas turísticas que vendiam tecidos lindos e muito coloridos, mas com preços altíssimos para turistas.
Passando das 8h da noite fomos para a rodoviária, nos despedimos do Laxmi, nosso motorista de riquixá, esperamos pelo ônibus e voltamos para Mumbai.
Aurangabad é uma cidade única e muito difícil de ser compreendida. Posso dizer que, por todas as dificuldades que passamos por lá, crescemos muito e aprendemos a ter paciência e respeitar esta cultura tão diferente de tudo o que conhecíamos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ellora e Khuldabad


Pegamos o riquixá e fomos até o sítio arqueológico de Ellora,no caminho até lá, que durou mais ou menos uma hora, eu quase enlouqueci de tantas coisas incríveis que meus olhos viam. Todas aquelas cores dos sáris, a força daquelas mulheres trabalhando arduamente para conseguir algumas rúpias, a incrível divisão de castas revelando aqueles homens jogados em um canto da rua trabalhando com couro, outros juntando com as mãos fezes de animais deixados pelo caminho e colocando em bacias enquanto carros luxuosos passavam por nós conduzidos pelos motoristas com seus donos que iam curtindo a paisagem no banco de trás. Vimos as primeiras vacas cruzando as ruas, os porcos e as cabras comendo o lixo espalhado, a natureza incrível que nos cercava, os montes, as plantações de algodão sendo cuidadas pelas mulheres, os caminhões super lotados de cana de açúcar que ultrapassavam nosso riquixá o tempo inteiro, os templos hindus pelo caminho e, finalmente, chegamos nas cavernas de Ellora. Mal paramos o riquixá e muitos vendedores de cartões postais e tantos outros souvenirs vieram até nós insistir para que comprássemos qualquer coisa, digo insistir porque é assim que eles fazem, ficam falando muito enquanto andamos e não saem do nosso lado, é tão sufocante que às vezes é difícil controlar o humor.
Ellora é um sítio arqueológico composto por 34 cavernas esculpidas e pedra. As cavernas 1 a 12 são budistas, 13 a 29 hinduístas e 30 a 34 são jainistas. A mais famosa é a 16, onde fica o Templo Kailasa que é a maior escultura do mundo feita a partir de uma única pedra. A caverna é realmente gigantesca e tem uma força incrível. Enquanto explorávamos o lugar, entramos em uma parte que eu não sabia o que era, vi que algumas pessoas depositavam oferendas e rezavam e logo eu comecei a sentir uma energia tão forte que não sei exatamente como explicar, parece que o ar que eu respirava estava ficando sólido e de repente eu senti uma vontade absurda de chorar, mas ao mesmo tempo minha mente pensava que tudo o que eu sentia era absurdo e que eu nunca acreditei muito nessas energias que algumas pessoas falavam, mesmo sendo espírita, então, eu simplesmente comecei a chorar silenciosamente. Quando saímos perguntei ao Martin se ele sentiu a mudança do ar, a final poderia ser só pelo lugar fechado que eu havia sentido aquelas coisas, mas ele disse que não, que tudo estava normal. Quando perguntei a um guia o que era aquele lugar, ele disse que era onde estava Shiva, foi então que me deu um frio na barriga e uma tremedeira nas pernas, acho que foi a sensação mais incrível que já vivi. Infelizmente não sei mesmo como me expressar melhor e minhas palavras ainda são meio atrapalhadas, mas só sei que não esqueço o que aquilo significou para mim.
Bom, depois de todas essas novas sensações, continuamos a caminhar pelas outras cavernas, a número 10 (Vishwakarma), tem uma enorme figura da Pregação de Buda entalhada sob um teto abobado, nesta, Buda está observando o nascer do Sol. As cavernas jainistas são as mais simples, a Indra Sabha possui esculturas de leões e elefantes nas paredes. Todo este complexo com as 34 cavernas ocupam cerca de 2km.
O surgimento e o crescimento da importância de Ellora coincidiram com o declínio do budismo e com a revitalização do hinduísmo. Ellora ficava em uma importante rota de comércio e foram esses lucros que financiaram os 500 anos de escavações.
Nossa visita a Ellora durou até as 17h, depois no caminho de volta paramos em Khuldabad (Morada Celestial), também chamado de Rauza,um complexo religioso criado por santos sufis no século 14 que era considerado tão sagrado que muitos sultçoes do Decã optaram por ser enterrados lá. De noite voltamos para o hotel e dormirmos, exaustos.